Os “dribles” da Ditadura na Copa de 70

 Antonio Carlos
Igor Coelho
Luigi Reis
Renata Batista
Tomas Pires

RESUMO

Este artigo se propõe a apresentar a cobertura jornalística da Copa de 70, juntamente com suas inúmeras curiosidades relacionadas aos jogadores. Contém material histórico retirado do jornal Estado de Minas, revista Veja, as narrações dos jogos pela emissora Itatiaia de rádio assim como entrevista com ex-jogador. A copa de 70 foi o pano de fundo do povo brasileiro sobre a ditadura, o grito outrora limitado pela repressão pôde ser expelido como forma de alívio e desabafo. Os meios de comunicação, mesmo sendo simplistas ao enunciar as opressões governistas, deixaram nas entrelinhas expressões bem claras do momento vivido pelo país. E o povo? Bem, o povo ergueu a bandeira com o grito de liberdade, enfim são 90 milhões em ação, pra frente Brasil salve a seleção.

PALAVRAS-CHAVE: Copa do Mundo de Futebol; Jornalismo; Ditadura.

INTRODUÇÃO

O futebol ainda hoje está entre os grandes propulsores da maioria dos povos, demonstra a importância como rito cultural, apresentando e preservando a diversidade e identidade de um povo. De quatro em quatro anos, a população é movida por esse sentimento único descrito como Copa do Mundo.

No futebol, de uma forma até caricatural, se expressam as vontades de uma nação. O esporte nos torna um só, somos igualitários movidos pela mesma vontade de vitória, estamos ali representados pelos jogadores e nos transformados em um pouco de técnicos, querendo decidir o destino de cada partida.

Das diversas copas, a de 70 nos permite levantar vários tipos de questionamentos, ocasionados principalmente, naquele momento, em que o país vivia sob uma ditadura.

Como divulgar a Copa sem criticar o governo? Como desassociar os jogos da política? Como os jogadores separaram o momento vivido, do futebol a ser apresentado? Como o povo, mediante as diversas repressões, pôde se expressar em cada jogo?

Esses e outros diversos questionamentos foram os principais impulsores à criação deste artigo que visa situar o que havia por trás desse tricampeonato, de uma seleção invicta, de uma mídia censurada e de um povo outrora calado.

Trata-se de um estudo realizado com veículos midiáticos da época, entre os quais a revista Veja e o jornal Estado de Minas, os jogos transmitidos pela Rede Itatiaia de Rádio, assim como entrevistas realizadas com ex-jogadores e jornalistas envolvidos com a Copa de 70.

METODOLOGIA

O trabalho interdisciplinar partiu de uma pesquisa bibliográfica histórica, a fim de esclarecer os principais pontos da Copa de 70. Essa pesquisa prévia nos jornais, livros, revistas, no acervo da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, situada na praça da Liberdade, foi fundamental na medida em que direcionou futuras abordagens e mostrou as maneiras de exploração do tema, através de uma pesquisa fundamentada para posteriores atuações em campo, ou seja, as entrevistas.

A conciliação entre a pesquisa bibliográfica e as entrevistas sugere que todo conhecimento sobre a Copa de 70 fosse revisto e reavaliado. A importância de basear o trabalho nestes métodos se deve a vontade de apresentar o objeto de estudo como nunca anteriormente apresentado ou estudado por outros pesquisadores.

A pesquisa bibliográfica trouxe ao trabalho uma abordagem histórico-cultural, já as entrevistas uma aproximação histórica e envolvimento com o objeto de estudo, sendo assim, possibilitaram um diálogo entre pesquisa e fatos vivenciados, essa abordagem deu voz ao objeto de estudo.

Portanto, as associações dos conceitos da Copa de 70, em discussão com os conceitos apresentados pelos entrevistados e pela própria pesquisa, aproximaram o trabalho da realidade de uma forma mais verossímil e fiel possíveis.

Os métodos, além de comparativos, ao que se tinha em mente, também foram históricos ao tentar compreender o presente através dos acontecimentos em 70, e comparativos ao estabelecer semelhanças e diferenças para os dias de hoje, efetuando uma releitura, através de uma observação extensiva entre, dados históricos, entrevistas, percepções e matérias selecionadas.

Mesmo não existindo uma aproximação uma experiência real com o objeto de estudo, ou seja, os pesquisadores não presenciaram os fatos, é possível manter uma visão empírica essencial nesse projeto.

Manteve-se uma visão jornalística, visto que é possível avaliar a causa-efeito da Copa de 70 no material histórico selecionado e nas entrevistas efetuadas é possível avaliar a sociedade e as transformações vividas naquele momento.

COPA É “TIRO DE META” PARA GOVERNO

“Que é o governo? Nada se não dispuser da opinião pública”

                                                                                   (Napoleão Bonaparte)

Para compreender esse momento histórico, a pesquisa bibliográfica no jornal Estado de Minas e Revista Veja buscou desvendar o contexto sócio-político e econômico em que a Copa de 1970 estava inserida. Politicamente, o país vivia um período ditatorial que tinha no comando Emílio Garrastazu Médici. Ele governou o Brasil de 30 de outubro de 1969 a 15 de março de 1974 (quatro anos, quatro meses e 17dias). Assumiu a presidência aos 64 anos.

Considerado o presidente militar mais violento da ditadura brasileira, o General Médici se amparou em uma propagada política ideológica jamais vista no Brasil, para “maquiar” tamanha repressão. Principalmente, no período da Copa iniciou uma grande arrancada para tentar mudar a imagem negativa perante a sociedade.

Tendo como maior aliado a Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP), e numa época em que todas as críticas ao governo eram censuradas, o governo Médici tentou manipular os meios de comunicação social, desempenhando um papel importante nas relações estabelecidas entre o Estado e a população brasileira. Exemplo disso é a reportagem de capa da revista Veja (N 95, 1/Julho/1970) que aparece na Figura 1. E o futebol, como não poderia deixar de ser, foi utilizado como a grande arma dessa propaganda ideológica.

Fig. 1 Capa da Revista VEJA, N. 95, 01/Julho/1970

Em termos de comunicação de massas, disse a VEJA um assessor presidencial, Isso significa muito para um governante que não despreza a popularidade. A maioria dos especialistas em comunicação de massa que assessoram os políticos recomenda sempre que eles procurem associar positivamente suas imagens aos fatos que provocam júbilo popular. Os colaboradores do presidente Médici, estão atualmente mais preocupados em como aproveitar os resultados positivos da Copa. A Copa do mundo e o interesse pelo futebol foram como uma ponte de comunicação entre o governo e o povo (Deputado Raimundo Padilha). (VEJA, N 95, 01/Julho/1970, p.20).

A AERP foi criada ainda no governo de Costa e Silva, com a exclusiva intenção de assessorar o presidente da republica nos assuntos de Comunicação Social. Porém, sem muito sucesso, veio a atingir seu ápice apenas em 1970, quando já no governo Médici, alterou em partes a sua estratégia e passou a atuar em outros segmentos além da assessoria do presidente. A AERP estabeleceu alguns novos objetivos para a comunicação social na ditadura militar, estimulando o amor à pátria e fortalecendo juntamente ao povo um caráter nacionalista. Disse o governador Peracchi aos jogadores da seleção:

Vocês (os jogadores tricampeões), com essa vitória, devem ter influído no espírito de quantos, a serviço de causas malsãs (pessoas com más intenções, pessoas maldosas com más intenções), procuraram enxergar no Brasil um país que não é uma democracia, mas ditadura. Mas quem quiser ver que isso não é uma ditadura, é uma democracia, que venha ás ruas de todos os estados brasileiros e vejam como o povo brasileiro livremente se manifesta. (VEJA, N 95, 01/Julho/1970, p. 20)

O grande trunfo utilizado por Médici para obter popularidade foi passar ao povo justamente uma idéia de que ele era um deles. Explicitando uma “suposta” preocupação com o bem-estar da população e com o avanço do país, Médici assumiu a imagem de Pai da nação. Sua imagem pública chegou a ser comparada a de padre Cícero nas humildes casas de camponeses. Apresentava-se como grande admirador do futebol, o General freqüentava estádios e estava sempre com seu radinho de pilha junto ao povo, muitas vezes, sendo anunciada a sua presença nos auto-falantes. Assim, Garrastazu Médici alcançou sua popularidade exemplo disso ainda da reportagem de capa da revista (VEJA, N 95, 01/Julho/1970, capa) (Figura 2).

O ditador, que aliou sua paixão pelo futebol às estratégias colocadas pela AERP, não perdia uma oportunidade de ligar sua imagem ao esporte. E numa época em que o Brasil contava com, nada mais nada menos que Pelé, o melhor jogador de todos os tempos e rei do futebol, uma seleção considerada por muitos a melhor de todos os tempos, e ainda um povo apaixonado por futebol, transformar Garrastazu Médici em torcedor número um da nação era essencial para sua campanha.

Fig. 2- VEJA, N 95 – 01/Julho/1970, p. 18

O general aparecia para o público sempre em eventos especiais ligados ao futebol, como por exemplo, em 1969, onde uma nação inteira aguardava ansiosamente ao milésimo gol de Pelé, e quando completado o feito foi recebido em Brasília e condecorado com uma medalha de mérito nacional e o titulo de comendador.

Médici ainda chegou a intervir diretamente na seleção “canarinha” ao demitir o então treinador João Saldanha, suspeito de simpatizar e militar no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Segundo rumores, o ditador também impôs a convocação do jogador Dario, o Dada Maravilha, o que nunca foi confirmado oficialmente.

O General Garrastazu Médici sempre atuava em conjunto com sua assessoria especial de relações publicas, e a grande jogada do governo aconteceu basicamente em cima da copa do mundo de 70, no México. Enquanto seqüestros, torturas e mortes aconteciam no Brasil, a AERP soube manipular o povo com frases que evidenciavam a exaltação militar, que eram vinculadas nas rádios, televisões e jornais, como “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, “Ninguém Segura Este País”, ou “Pra Frente Brasil”. A euforia dos brasileiros quanto ao futebol, os cegavam perante os acontecimentos repressivos e truculentos, exemplo destes acontecimentos, foi outra capa da revista Veja (N 94,24/Jun./1970) (Figura 3).

Capa - Fig. 3-Revista VEJA – Ed. 94 – 24/Junho/1970

Ao chegar ao Brasil, após a conquista da Copa, os jogadores da seleção foram recebidos mais uma vez, pelo General Médici que fazia questão, assim como outros militares, de aparecer em varias fotos com os campeões mundiais, passando a impressão de que a seleção só havia ganho a Copa graças à Ditadura Militar. Nas escolas, praças e grandes centros o clima era de ufanismo, exaltação da pátria.Paralelamente à campanha com o futebol, era feita também uma campanha econômica, exaltando o tão falado milagre econômico que ocorria no Brasil, que coincidentemente aconteceu no período do governo Médici. O PIB brasileiro crescia cerca de 11,2% ao ano, a produção industrial aumentou, gerando vários empregos, e consequentemente o governo aumentou sua taxa de impostos, sabendo mais uma vez a AERP, “levar” o povo com suas manobras políticas e suas campanhas publicitárias idealizadoras.

NOVENTA MILHÕES EM AÇÃO

Embora houvesse toda essa movimentação política para “maquiar” as ações repressivas do governo, isso não era percebido diretamente por alguns jogadores que viveram o período e que, de certa forma, foram também usados pelo estadista.

Paralelo à campanha para a mudança da imagem de Médici, vê-se um povo ativo nas ruas, cenário completamente diferente de outros períodos, onde aglomerações e reuniões nas ruas eram sinônimo de conspiração. O jornal Estado de Minas traz um retrato fiel desse quadro vivido pelos brasileiros, principalmente pelos mineiros, nesta época, assim como o depoimento do veterano jogador Wilson Piazza.

Em se tratando de Copa do mundo o povo brasileiro, quiçá todos outros, são envolvidos por essa magia chamada futebol, em tempos de fome, distrações adversas, crises financeiras, holocaustos e em época de ditadura, ressaltado pelo momento na Copa de 70, um povo capaz de criar forças e ainda registrar um grito de gol, basta ver a bola rolando que nos tornamos técnicos, um pouco jogadores e exímios torcedores.

Um dos jogadores com maior ascensão na seleção brasileira Wilson Piazza, deixa claro em seu depoimento, como foi possível avaliar essa popularidade incondicional do governo, e esse esquecimento generalizado no momento vivido no país, ao menos para a maioria dos jogadores, que não tinham conhecimento do regime ditatorial diz: “Nós tínhamos como preocupação jogar futebol e jogar com prazer” (PIAZZA, 2011), em entrevista concedida para confecção do artigo. (Figura 4).

Fig. 4 - Autor - Igor Coelho – 10/Maio/2011

O único encontro do jogador e demais colegas de seleção, com o Presidente Médici ocorreu após a conquista comemorando o título. Ao serem recebidos pelo Presidente da República, o sentimento era de respeito, fruto, segundo Piazza, de uma época, que já vinha de casa. Durante os jogos, o mais importante era mesmo estar todos bem preparados. “Em nenhum momento nós entendemos nossa participação como fortalecimento do regime… a gente não tinha essa consciência.” (ibidem).

Dentre os membros da delegação havia militares, que segundo o ex-jogador, jamais percebeu algum tipo de interferência para com ele, e as brincadeiras eram até constantes. Todos tinham consciência da participação dos militares; e diz ser a favor do regime militar quando fala das melhorias que o Brasil teve com os militares dentro do esporte. “Eu ouço até dizer que sinceramente o regime militar trouxe, no caso do futebol, até mais conquistas do que qualquer outro regime de governo democrático até hoje” (ibidem).  Dentre as conquistas desse período, destaca a regulamentação da profissão de jogador. E diz mais: “Eu tenho lamentavelmente hoje de uma forma triste, indignado, dizer que os governos considerados democráticos estão devendo muito para o esporte em geral… e principalmente no caso do futebol” (ibidem). Demonstra uma preocupação para com o futuro dos jogadores no fim da carreira.

Ao ser questionado como era o clima antes dos jogos, com firmeza, diz que o pensamento entre o grupo era de jogar futebol, e isso era bom. Os jogadores eram bem próximos uns dos outros, com ótima convivência e também para com a torcida. “Apesar do regime militar a gente tinha essa abertura muito grande de contato com o torcedor, com o povo, por isso que o Brasil conquistou logo de pronto essa identificação, essa alegria” (ibidem). A cobrança para com o jogo havia entre os próprios jogadores.

A Copa de 70, como ficou conhecida popularmente e que marcou toda uma geração e nação, foi realizada no período mais repressivo do regime militar ao qual o país vivia. Indagado sobre esse momento, como percebia a realidade da sociedade, fala com franqueza que a maioria dos jogadores não deveria ter consciência política dos fatos.

 Quem seria capaz de explicar, quando algumas crises entram pela porta adentro dos barracos dependurados nos morros e onde gente mal trapilha e faminta nem tempo tem para pensar na fome, e, contudo conhecem Zagalo, comentam o chute dado em Saldanha e discutem que foi merecido (Estado de Minas, N 08/Maio/1970, p. 38).

A minha alegria é ter visto naqueles amontoados de jogadores e todos os gritos e todas as reclamações sentidas de 90 milhões de bocas… Eu vi ali o meu povo, eu vi ali o meu País. De Félix a Rivelino, eu vi o meu povo grande, o meu povo sofrido, o meu povo alegre, o samba de minha gente. Eu consegui esquecer ali que esse povo tem sofrido por tantas culpas de si próprio e da natureza. Eu tirei de minha cabeça o cansaço de saber que esse meu povo conhece todos os problemas da vida, Tudo ficou tão contente/ Por que de repente / Minha gente era povo de novo na rua (Gilberto Gil), porque estava ali todo o coração de um povo, de minha gente… Eram apenas 11 homens de meu povo que lutavam que sofriam e choravam, como todo o povo e ganhavam (PRAZERES, caderno FORA DE JOGO, Estado de Minas, 18/Jun./1970, p. 52)

Em 64, por exemplo, alguns estudiosos realizaram uma apropriação do lema Marxista “O futebol é o ópio do povo.”, fazendo uma referência a um tipo de governo apresentando sua publicidade, através do futebol no regime militar, tornando o povo um só, alienado sem desvios, como se mantivesse o foco apenas na copa de 70, sem perceber o que acontece ao seu redor, sem sentir o peso da ditadura, é como ter um povo envolvido apenas pelo futebol, e cego aos acontecimentos ao seu redor.

Fica proibido um sentimento que não seja o da alegria. Todas as lágrimas descerão apenas para a felicidade, é proibido ficar em casa, é proibido ficar impassível… É proibido ter medo: agora é tudo uma certeza de que o título da copa voltará ao Brasil (Estado de Minas, 09/Junho/197, p. 36).

A copa vai tornar possível até uma alteração no horário “A Voz Do Brasil”, pois, se o programa da Agência Nacional for apresentado normalmente de 19h ás 20h, as rádios brasileiras não poderão transmitir do México. Mas como o governo deu várias provas anteriores de que está interessado em facilitar a transmissão da Copa, pela TV e rádio, deve fazer uma concessão, atrasando ou adiantando a “Hora do Brasil” (Estado de Minas, 05/Maio/1970, p. 32).

Sendo assim, fora da contextualização da copa do mundo, um povo que seja destemido, encorajado, como o descrito nos momentos das copas, não seria abraçado pelo governo brasileiro, um povo que vai às ruas manifestar suas vontades, é bem vido apenas neste momento de Copa do Mundo

Um povo que acredita ter o melhor país para viver, um país que se desenvolve como os “passes de Pelé.

Passa um fusca em alta velocidade. Sobre ele, equilibrado, equilibrando uma bandeira, um rapaz sem camisa, sua voz já rouca de tanto gritar. Mas isso não é proibido? Um guarda olha de longe, como está com o apito na boca, desta vez nada tem de rigoroso, de cumpridor das leis… lá vai fusca em sua alegria, cheio de gente pra dentro e pra fora. Lá vai o fusca, e o guarda não é mais guarda, é apenas um ritmista. (Estado de Minas, N xx,  09/Jun./1970, p. 48).

Piazza ainda relata que não tinham um retorno durante o mundial de como a população reagia mediante a participação deles nos jogos. Só puderam saber a reação da população a partir do desembarque e com a taça na mão. A manifestação do povo para com eles resume assim: “era além do que a gente poderia imaginar.” (PIAZZA, 2011) (Figura 5).

Fig. 5 Autor: Igor Coelho – 10/Maio/2011

Na ausência de noticias brasileiras, a recepção dos mexicanos foi acolhedora e carinhosa, não houve vaias em nenhum momento. Sentiram a pressão ser menor por estar jogando fora de casa, melhor inclusive para a concentração. No instante da conquista, a maior emoção sentida foi “ver a maior parte da torcida no estádio – os mexicanos – torcendo e vibrando como se fosse à torcida deles… Agradeço a Deus por ter participado de um momento tão especial e respondendo com altura nos jogos. Ganhamos todos os jogos.” (PIAZZA,2011)

Com emoção fala que “essa música (Pra frente Brasil) até hoje quando ela toca me arrepia”. (ibidem).Essa conquista valeu porque o brasileiro a viveu em primeiro plano, com muito carinho, com muita identificação, relata saudosamente. Uma falta no México: “saudades da Bandeira brasileira nas casas” (ibidem).

UM OLHAR QUATRO DÉCADAS DEPOIS

Quanto à matéria “O Drama nas ruas” (Figura 6), o repórter efetua diversas assimilações, utilizando a sintaxe no nível discursivo, para orientar o leitor em relação ao espaço, no caso as ruas, assim como na forma semântica efetuando uma comparação de linguagem e temas ao dizer, por exemplo: “O futebol é uma festa de orgia ainda que casta, e tal como acontece nos felizes bosques gregos, num balé sutil e energético.” (Veja, N 93, 7/Jun./1970. p. 54 a 56), remetendo assim às festas Dionisíacas, estas que aconteciam regulamente na Grécia e durante as bacantes, quando ninguém poderia ser detido e aqueles que estivessem presos eram libertados para participarem da festança geral (BONNARD, 1966).

É um texto temático, mas também figurativo, recheado de metáforas e sentidos conotados, com críticas implícitas ao regime ditatorial “… Mas o futebol, ainda sendo uma festa, é também uma guerra…”, “Esse caráter ambíguo do futebol, essa contradição entre festividade e conflito reflete-se também fora de campo…” (Veja, N 93, 17/Junho/1970, p. 54 a 56),  o texto reflete como tema principal o futebol, mas também registra estes diversos momentos de crítica governista, onde existe um povo permitido a tudo bem embaixo dos olhos de um governo rigoroso e neste momento nem tanto.

O intradiscurso nos remete ao festejar sem limites, do poder do povo em se expressar em tempos de ditadura, como as outras duas partes do texto nos apresentam e nos levam a acreditar, em destaque: “Tudo isso configura um quadro de extravasamento de frustrações não futebolísticas”, “… O futebol seria um momento em que é possível as pessoas se movimentarem coletivamente… extravasando uma agressividade que não tinha outro caminho para sair.” (Ibidem). O autor de forma implícita diz que foi o momento em que o povo brasileiro deu o grito outrora censurado.

É interessante identificar nas imagens o orgulho de ser brasileiro manifestado por ocasião da Copa do Mundo, num patriotismo temporário. É a bandeira como vestimenta e ao mesmo tempo como o grito revolucionário de liberdade, inconscientemente.

Fig.7 e Fig.8 VEJA, N. 93 – 17/Junho/1970 p. 55 e 56

Fig.6 Revista VEJA, N. 93 – 17/Junho/1970

Na (Figura 7), observamos a audácia dos torcedores, um deles até mesmo atrapalhando o trânsito, mas certo de que não será autuado. O policial perde a pose, mas não perde o lance, se iguala a toda uma população em prol de um bem comum, acompanhar a vitória do seu time, se une em igualdade a todos os outros brasileiros, é autoridade, mas acima de tudo torcedor (Figura 8).

Fig.7 e Fig.8 VEJA, N. 93 – 17/Junho/1970 p. 55 e 56

Se não considerarmos o contexto da época, o texto e a legenda seriam como contemplar as imagens e perceber os torcedores como signos icônicos – indiciais de vitória, alegria, comemoração, já que a maioria das imagens é polissêmica. Mas se avaliarmos o momento vivido pelo país, adentrando no processo de significação, na etapa da terceiridade, identificamos o porquê deste patriotismo. A partir de uma visão “generalizada” do que a copa de 70 representou ao país, um momento em que o governo pediu para amá-lo ou deixá-lo, e mostrou através das sucessivas vitórias da seleção, o quão bom é ser a camisa 10 de um Brasil sob o regime militar, ironicamente. Como afirma Santaella, “é necessário desenvolver considerações situacionais sobre o universo no qual o signo se manifesta e do qual é parte” (SANTAELLA, 2007, p.31).

Ainda sobre a Figura 8, observamos como índice, a relação do futebol em primeiro plano, até o oficial do exército se deixa vencer pelo rádio, perde a pose, mas não a jogada. Apresenta como signo o entendimento do futebol atingindo a todas as classes, até mesmo os que se dizem promotores da lei e ordem, demonstrando a união do povo em torno de um só ideal.

Vale também ressaltar a vinheta criada para a Copa, escrita pelo autor Miguel Gustavo e escolhida pelos patrocinadores das transmissoras de rádio, coniventes e apoiadores do governo ditatorial do general Médici. O discurso tenta implicitamente esconder o nacionalismo imposto pelo regime militar, os versos e a melodia tornaram-se símbolo da seleção, encobrindo a intenção governista.

(PRA FRENTE BRASIL)

Miguel Gustavo

Noventa milhões em ação
Pra frente Brasil
Do meu coração

Todos juntos vamos
Pra frente Brasil
Salve a Seleção

De repente é aquela corrente pra frente
Parece que todo o Brasil deu a mão
Todos ligados
na mesma emoção
Tudo é um só coração!

Todos juntos vamos
Pra frente
Brasil, Brasil
Salve a Seleção

Como citada por Piazza, a música “Pra Frente Brasil”, realmente causa essa sensação motivacional em quem a escuta, o povo foi movido pela melodia e letra que se fazem repetir, nessa mensagem de otimismo e nacionalismo na repetição das palavras, destacadas no texto em vermelho, verde e azul.

São palavras que sujeitam uma atividade cooperativa e nacionalista, em busca de um prol comum como exemplos: “todos”, “vamos”. “Pra frente”, “Ligados”, “Juntos” percebemos exatamente essa necessidade de ocasionar um sentimento motivacional.

São versos que implicitamente querem induzir o povo à valorização do seu governo, ao patriotismo, ao amor ao seu país, dá a impressão de união incondicional. Um povo nacionalista às cegas e condizente com as imposições deste governo que lhe dá o melhor futebol do mundo, mas que o mantém em regime militar, como em uma relação de “morde e assopra”.

Na Figura 9, há a identificação de uma imagem subliminar do governo, o Ame-o ou Deixe-o assimilado a imagem do jogador de maior ascensão da seleção, o rei Pelé, que visto pela maioria da população como símbolo de desempenho, de certeza foi realmente o “queridinho” do povo.


Fig.9, VEJA – N 95 – 01/Julho/1970 p. 30 e 31

CONCLUSÃO

 A interdisciplinaridade do projeto de pesquisa é necessária para o jornalismo, e em específico para este artigo, na medida em que busca unir as perspectivas das várias disciplinas estudadas, no objeto de estudo.

Desde o início, esperava-se que o trabalho constitui-se num acervo amplo em que todo conhecimento deveria ser repassado levando em consideração a distância mínima, para que não fossemos carregados pela nossa visão pessoal.

A pesquisa foi realizada trabalhando a interdisciplinaridade do que se estudou no módulo. As pesquisas históricas foram direcionadas pelas disciplinas da “HISTÓRIA E POLÍTICA CONTEMPORÂNEAS”, assim como “ANÁLISE CRITICA DA MÍDIA”, que nos deram forte embasamento na seleção e estudo de cada reportagem.

A “SEMIÓTICA” veio engrandecer o estudo realizado das imagens, áudios e textos selecionados, assim como entrevista realizada, direcionando o trabalho a uma visão atual dos fatos, mesmo sem contato presencial com os mesmos, a disciplina de “FOTOJORNALISMO” trouxe a sensibilidade visual em cada perspectiva estudada nas fotos selecionadas. A “ÉTICA E LEGISLAÇÃO” nos amparou, ao que se pode dizer nas normas de conduta e respeitabilidade, na confecção do artigo, principalmente nas citações dadas por entrevista ou em matérias selecionadas, por fim, a própria disciplina criada para direcionar todo o trabalho “TRABALHO INTERDISCIPLINAR DIRIGIDO III” nos direcionou a junção de todas as disciplinas orientando o trabalho da escolha do objeto de estudo ao produto final, suas normas de confecção melhores fontes de pesquisas diante de um mar de possibilidades.

Mais do que as disciplinas puderam contribuir com o artigo, o próprio objeto de estudo nos permitiu efetuar toda a organização necessária para a sua confecção, mesmo com adversidades em conseguir entrevistados, como exemplo o ex-jogador Dario José dos Santos, mais conhecido como Dadá Maravilha, que não se predispôs a uma entrevista, tivemos encontros inusitados, um deles com o também ex-jogador Wilson da Silva Piazza, mais conhecido como Piazza e outro com Creusa Leite Alves, viúva do radialista Vilibaldo Alves, da Rede Itatiaia de Rádio, que gentilmente nos cedeu arquivos pessoais, com material narrativo do radialista e jornalista esportivo.

REFERÊNCIAS

BONNARD, André. Civilização Grega. Estúdios Cor, Lisboa, 3 v., 1966 (pg, 23 e 24)

SANTAELLA, Lucia 2007. São Paulo: Brasiliense 1°Ed. (pg. 30 e 31);

VEJA Ed. 93 de 17/Junho de 1970;

VEJA Ed. 94 de 24/Junho de 1970;

VEJA Ed. 95 de 01/Julho de 1970;

ESTADO DE MINAS / Edições de Maio a Julho de 1970;

Entrevista realizada com o ex-jogador, Wilson da Silva Piazza, em 10/Maio/2011; pelos alunos Igor Coelho, Luigi Reis e Tomás Pires, estudante do 3º. Semestre do Curso de Comunicação Social com Ênfase em Jornalismo Multimídia e também autores deste artigo.

Narrações de Vilibaldo Alves, jogos da copa em arquivo de CD (áudio), de 3/Junho/1970 a 21/Junho/1970;

MEDIAÇÃO Revista Ed. 4 Dezembro de 2004 / Universidade FUMEC.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. FREDY SUESCA
    ago 16, 2013 @ 17:58:21

    Cordial saludo desde Bogotá – Colombia

    Como puedo por intermedio de ustedes poder conseguir el CD con las narraciones de Vilibaldo Alves de la Copa de Mexico 1970.

    Un abrazo y muchas gracias

    Responder

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