Regime Militar: Jornal De Fato em Belo Horizonte nos Anos 70

Felipe Weykman
Mara Prata

Resumo

O trabalho tem como objetivo explorar e apresentar o jornal De fato, criado em Belo Horizonte, em 1976, durante a Ditadura Militar. O desafio de abordar o tema, ainda pouco discutido, é a carência de acervo documental. Busca-se situar historicamente a imprensa alternativa no contexto de oposição ao Regime Militar.

Palavras- Chave: Ditadura Militar, Imprensa Alternativa, Jornalismo.

Introdução

Entre 1964 a 1980, surgiam e desapareciam cerca de 150 periódicos alternativos no Brasil, que tinham como marca a oposição ao governo militar.

Particularmente, no ano de 1968, após a decretação do ato-institucional nº 5, em 13 de dezembro daquele ano, o país foi marcado pela grande opressão aos opositores do regime militar. As grandes manifestações ocorridas, como os movimentos estudantis, passeatas, oposição armada e a rebeldia contra o crescimento das idéias contraculturais, foram duramente reprimidas (BARROS, 2003).

Com ideologias contrárias ao regime, pode-se destacar neste contexto a imprensa alternativa, chamada também de underground, emergente, nanica e até de não-alinhada, que recebia essas nomeações com o intuito de generalizar sua produção independente.

Este artigo apresenta a imprensa alternativa no Regime Militar em Belo Horizonte nos anos 70. Tem como objetivo explorar, entender e apresentar o Jornal De Fato para a sociedade, identificando sua importância na construção da imprensa alternativa dentro e fora da cidade de Belo Horizonte.

A Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa e o Arquivo Público Mineiro (APM) não serviram como centro de pesquisa e fornecimento de dados sobre o objeto de estudo, pois em acervos documentais, nada foi encontrado. Depois de procurarmos na internet, ainda não tivemos sucesso. Diante dessa problemática decorrente da falta de material, questionamos nossa proposta de estudo e decidimos que havia relevância em abordar o tema ainda pouco conhecido e discutido. Foi então que a orientadora deste trabalho nos informou que o criador do De Fato, Aloísio Morais Martins, morava em Belo Horizonte e deveria ter o arquivo do jornal. Após o procurarmos, gentilmente ele nos cedeu seu acervo pessoal e foi nele que pudemos, enfim, conhecer o De Fato e realizarmos nossa pesquisa

Esta dificuldade de se pesquisar este período da história já é um consenso. Por exemplo, a revista Monet (2011, p. 56-57)) destaca duas paginas abordando a história do grupo teatral brasileiro Dzi Criquettes que provocou um alvoroço dentro e fora do Brasil na década de 70.

O que torna curioso no artigo da Monet é que o grupo teve um enorme destaque no país e no exterior. As maquiagens e os figurinos davam um apoio estético um tanto quanto novo, mas arriscado, pois naquela época o Brasil vivia o apogeu da ditadura e da censura.

Infelizmente esta censura fez com que o grupo saísse do país e fosse para a Europa. Diante desse deslocamento, aqui no Brasil não se encontrou material que falasse ou mostrasse o grupo em ação no palco, o que foi possível encontrar estava na França, que por sinal a presença do grupo na capital francesa fez com que o reconhecimento pelo seu trabalho se tornasse mundial.

Abordando a mesma temática, mas com algumas perspectivas diferentes com relação ao nosso estudo, Carla Simone Rodeghero (2008) da UFRGS apresenta no artigo: Reflexões sobre história e historiografia da Ditadura Militar o caso no Rio Grande do Sul. Rodeghero expõe em seu trabalho as particularidades e desafios relacionados ao acervo documental sobre a Ditadura Militar no Rio Grande do Sul.

Logo no inicio de seu artigo ele relata: “Convidada a escrever um texto panorâmico sobre aquele período para a coleção História Geral do RGS, deparei-me inicialmente com as dificuldades relacionadas à falta de estudos monográficos sobre a Ditadura no estado e a inexistência de algum texto congênere que servisse de parâmetro para a realização da minha tarefa”, conta.

Diante dessa problemática, não poderíamos deixar de fazer a relação de sua pesquisa com a nossa que está situada em Belo Horizonte. Obviamente seus relatos têm cunho importante para o nosso trabalho, até mesmo, para nortear nosso estudo e no fim fazer comparações relevantes para ambas às pesquisas. Abordado de maneira peculiar em seu artigo, Rodeghero a todo momento relata passo a passo os desafios enfrentados de levar o tema adiante e qual a importância que ele teria para futuros estudo sobre o tema.

Terminantemente, para ela, a constituição de material de fácil acesso sobre a Ditadura Militar na cidade do Rio Grande do Sul ainda é incipiente e recente, pois tudo isso está em fase de crescimento, fatores como esse atrasam produções acadêmicas, mas que, pensando por outro lado estudos assim são necessários e desafia o pesquisador a não desistir facilmente, o que tem crescido muito nos últimos anos.

Alternativo ou nanico, não importa o nome, o certo é que era de oposição

Utilizando artigos, revistas, jornais e livros que abordassem o tema da imprensa alternativa, apresentamos a seguir embasamentos teóricos para facilitar o entendimento sobre o assunto:

Um dos maiores objetivos da imprensa alternativa era mostrar ao público um olhar diferente sobre o sexualidade, cinema, política, literatura e economia, além de outras temáticas que eram censuradas pela grande imprensa.

“(…) É difícil caracterizar com precisão o papel da imprensa alternativa dos anos 60. Uma das polêmicas a respeito e que muitas vezes provocava discussão na época era exatamente o sentido preciso da expressão “alternativa” quando aplicada a imprensa política que se fazia ou tentava fazer.

No sentido estrito do termo, essa imprensa nunca foi de fato alternativa à outra imprensa, à chamada imprensa burguesa ou grande imprensa. Não foi alternativa no sentido de oferecer ao leitor uma opção de leitura, do tipo que levaria um cidadão a deixar de ler o Jornal Do Brasil para ler o Opinião, ou trocar o Estado De São Paulo por Movimento” (ABRAMO, 1998, p.1)

Procurando entender o conceito alternativo, recorremos ao dicionário Aurélio: A palavra “alternativa” vem de alter que propõe alterações, mudanças, então significa que algo se contrapõe a interesses ou ideologias dominantes. A denominação de “nanica” foi inspirado nas formas de tablóides adotadas pelos jornais alternativos. Essa nomeação se propagou entre os publicitários em um curto período, onde eles se cativaram pelos jornais alternativos.

Para Peruzzo a imprensa alternativa seria o processo de comunicação basicamente jornalístico, mas podem assumir feições mais amplas, de caráter autônomo e por natureza não alinhado aos padrões dominantes dos meios de comunicação, governos e os demais setores que representam as classes dominantes. Os veículos de maior porte se constituem em alternativa frente à mídia convencional enquanto fontes de informações. (PERUZZO, 2008, p.2)

A imprensa alternativa surge de duas articulações igualmente compulsivas: o anseio esquerdista de protagonizar as mudanças no meio que vivem e a busca por jornalistas e intelectuais de espaços alternativos relacionados à imprensa burguesa.

Para kucinski (1991), a imprensa alternativa dos nos 60 e 70 se dividia em dois grupos: um deles consistia em jornais alternativos com predominância política, que era baseado nos ideais de engrandecimento nacionalista, e do popular dos anos 50.

Patricia Marcondes de Barros alega:

“(…) O modelo ético-político da imprensa alternativa consistia no repúdio ao lucro e, em alguns jornais, até mesmo o desprezo por questões de administração, organização e comercialização. Paradoxalmente, a insistência numa distribuição nacional anti-econômica, a incapacidade  de formar grandes bases de leitores-assinantes e certo triunfalismo em relação aos efeitos da censura contribuíram para fazer da imprensa alternativa não uma formação permanente, mas sim algo provisório, frágil e vulnerável não só dos ataques de fora como das suas próprias contradições.” (BARROS, 2003. p.64)

No Brasil, a imprensa alternativa fazia-se presente em estados como: Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais. Pasquim, Opinião,  Movimento e De Fato foram jornais alternativos que fizeram parte do cenário.

           Escrito por Cicília M. Khroling Peruzzo o artigo: Aproximação entre comunicação popular e comunitária e imprensa alternativa e imprensa alternativa no Brasil na era do ciberespaço discutirá a comunicação alternativa no contexto do regime ditatorial.

A autora conta que:

”No conjunto, a comunicação alternativa representa uma contra-comunicação, ou uma outra comunicação, elaborada no âmbito dos movimentos populares e “comunidades” e que visa exercitar a liberdade de expressão, oferecer conteúdos diferenciados, servir de instrumento de conscientização e, assim, democratizar a informação e o acesso da população aos meios de comunicação, de modo a contribuir para a transformação social”. (PERUZZO, 2008. p.2)

Analisando este conceito, percebemos que a autora nos apresenta de forma clara e objetiva as diversas comunicações e suas funções na sociedade, sendo que algumas dessas se enquadram no tema em questão.

Peruzzo acrescenta:

“Com o passar do tempo, o uso da palavra alternativa para qualificar uma modalidade de comunicação foi se tornando mais complicado porque seu significado, diante das diferentes práticas que foram surgindo, não é unívoco. Ela tanto pode referir a jornais e outros canais comunicativos independentes, orgânicos ou não a movimentos sociais e organizações congêneres, como os jornais alternativos elaborados por seguimentos da pequena burguesia e vendidos em bancas, ou à comunicação popular e comunitária, propriamente dita e ainda aquela produzida por seguimentos combativos da oposição sindical”. (PERUZZO, 2008. p.2)

A Fundação Perseu Abramo apresenta o artigo Imprensa Alternativa: Alcances e Limites o real ou possível surgimento do termo imprensa alternativa nos anos 60. Vale ressaltar que o artigo pontua que, a imprensa não tinha o objetivo de oferecer ao público outra opção de leitura, que não fosse à mesma da grande imprensa, além de dizer que a imprensa alternativa pautava-se na imprensa burguesa para divulgar  seus  trabalhos, o que faz pensar em uma possível substituição da grande imprensa pela alternativa.

Apresentando essas e outras questões relevantes e pertinentes para dinamizar e polemizar o tema, o mundo da imprensa e suas constantes modificações e sua função na época da ditadura não passa despercebidas em suas diversas temáticas nela abordada.

O impacto na sociedade, como ela foi vista e aceita na sociedade são questões chaves para entender, estudar, criticar e expor o que se entende por imprensa alternativa.

Bernardo Kucinski (1991), autor do livro Jornalista e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa, fez a obra de maior abrangência sobre o tema. Ele relata as diversas fases que a imprensa alternativa passou no país. Inicialmente pontua: “Durante 15 anos de Ditadura Militar no Brasil, entre 1964 e 1980 nasceram e morreram 150 periódicos que tinham como traço comum a oposição intransigente ao regime militar. Ficaram conhecidos como imprensa alternativa ou imprensa nanica.”

Com amplo crescimento do termo imprensa alternativa essa ideologia foi ganhando espaço em todo o país, além de mobilizar jovens de esquerda ao regime que lutavam por liberdade de expressão.

Utilizando charges, outros jornais e fotos da ditadura, Kucinski conta de maneira expositiva a imprensa alternativa, como se comportavam com as repressões, como a ideologia política reinava sobre a sociedade. Além de citar vários jornalistas e revolucionários da época.

Luta nas palavras à mineira

De Fato foi um jornal alternativo fundado em Belo Horizonte na época da ditadura militar, em 1976. O objetivo do jornal não eram fins lucrativos, os seus integrantes chegaram a ter prejuízo para sua divulgação. Cada participante do jornal tinha um emprego à parte para conseguir se sustentar. Na criação do De Fato, foi necessária a contribuição monetária de cada um.

Os jornalistas, cansados de serem reprimidos e censurados na imprensa onde trabalhavam se uniram e montaram um jornal que mais se identificava com seus interesses e do público alvo, como os estudantes e intelectuais. Ao longo do tempo surgiram pessoas de outras áreas, como de direito, psicologia, economia e literatura que incorporaram no movimento contra a ditadura militar. Além disso, não havia regularidade na entrega do jornal, pois para os próximos exemplares, a equipe precisava arrecadar o dinheiro pelas vendas do anterior, como um trabalho voluntário, ou seja, se os aliados à ditadura pegassem os exemplares antes de ir à banca, a equipe ficaria sem o capital para a próxima edição.

Aloísio Morais foi um dos fundadores do De Fato. Ele fez da sua casa o espaço para as reuniões de pauta. A diferença entre o De Fato e os outros jornais alternativos, de acordo com a entrevista concedida por Aloísio (2011), era que todos sempre participavam de todo o processo do jornal e os vendia em bares, portas de teatro, na feira hippie, nas bancas e chegou a ter assinantes no exterior, em sua maior parte, exilados políticos.

Os assuntos abordados no jornal eram variados, pois falavam sobre religião, homossexualismo, cultura e movimento feminista. Com o passar do tempo, o jornal começou a ter uma forte tendência política, relatando a ação violenta da polícia e direitos humanos. Abordavam assuntos que não havia na grande imprensa por causa da censura. “O jornal De Fato foi importante, pois foi o primeiro de Belo Horizonte a reunir mulheres do movimento feminista, onde retratavam temas que eram contra a mulher naquela época, além de abordar temas sexuais. Nas redações, eram preponderantemente homens, mas as mulheres participantes era um grupo forte e essencial.”, conta Morais. Uma das matérias mais polêmicas, que marcou as publicações do De Fato foi sobre a Metropol (Polícia Metropolitana) que foi chamada na capa do jornal de “Metropau”, denunciando suas ações violentas contra os opositores, tratando-os como marginais, o que gerou grande repercussão na sociedade.

Dione Maria Diniz Dutra era uma das diagramadoras do jornal até 1977, “O De Fato era datilografado, diagramado e feita a arte final manualmente, em papel no tamanho natural do jornal. Mas não era só a imprensa alternativa que trabalhava com este procedimento. Todos os grandes jornais, como Estado de Minas, Folha, trabalhavam com estes ferramentais”.  O que era peculiar, segundo Dione Dutra, “era a forma coletiva como o De Fato era montado: A gente assentava-se numa mesa na casa do Aluísio e cada um fazia o que podia para ajudar, às vezes varamos a madrugada” (DUTRA, 2011).

“Havia muitas charges e textos longos.”, diz. Edson Fernandes Martins, jornalista que participou da fundação do De Fato (MARTINS, 2011). Ele afirma que o jornal teve um bom debate. Os dois ingressaram no jornal por ser uma forma de movimento de resistência à ditadura militar.

As cartas dos leitores eram de grande importância para o crescimento do jornal, porque diferente da grande mídia, era uma forma de manifestação que não podia passar despercebido, por isso Edson Martins e Dione Dutra são a favor para que o jornal seja disponibilizado em bibliotecas públicas como fonte de arquivo de pesquisa. (MARTINS; DUTRA, 2011)

O jornal De Fato sofreu um atentado em meados de 1978. Arrombaram as portas e entraram na tentativa de incendiar o local, o que levou os seus integrantes a desanimarem com sua produção e conforme o tempo, outros jornais e movimentos opositores começaram a surgir, isso fez com que o De Fato chegasse ao seu fim. Os que lá trabalhavam recebiam ligações ameaçadoras no decorrer da sua realização, apesar de que, para Edson Martins a censura era maior para as rádios e não havia receio para as pessoas lerem.

No livro: Jornalistas e revolucionários de Bernardo Kucinski, foi citada a seguinte frase: “O De Fato foi lançado em janeiro de 1976, sem organização administrativa e sem capital de giro, produzido de inicio na casa de Aloísio Morais.Colaboravam alguns jornalistas recorrentes da imprensa alternativa como Flaminio Fantini, João Batista dos Mares Guia e Luís Dulci.” Entretanto os jornalistas entrevistados para a produção deste artigo contestam a informação de Kucinski. Aloísio Morais afirma, “o Luis Dulci não participou do De Fato”. Edson Martins e Dione Dutra relataram “Flaminio Fantini e João Batista Mares Guias não participaram da fundação do jornal, eles entraram no ano de 1977, quando o jornal já se encontrava estabilizado, e suas contribuições foram positivas na área política, pois tinham um bom embasamento para o jornal.

Analisamos a seguir um editorial do jornal de fato, utilizando a Semiótica como referencial de análise. A semiótica do discurso é vista como a teoria da significação, a apreensão e produção dos sentidos. Com essa ideologia, a semiótica examina o conteúdo do discurso, que neste caso é o editorial, e se interessa pelo que o texto manifesta.

No ápice da ditadura, o editorial do jornal relata a situação política e econômica no texto a seguir:

“As eleições parlamentares deste ano transcorrem num momento muito especial, quando a crise política, militar e econômica revela com todas as letras o verdadeiro nome do regime: ditadura.

Ao longo de 15 anos opressivos, todos os pecados da ditadura foram impingidos ao povo, obrigado a conviver diariamente com o arbítrio, a exploração da classe operária, a corrupção, o controle sindical, a repressão, torturas, e mortes, o arrocho salarial, a fome, a censura, a sujeição ao grande capital, etc.

Hoje, a discussão de todos esses aspectos já se tornou mais ampla, possibilitando uma maior participação popular nas eleições parlamentares em relação aos anteriores.

Mas as eleições de 15 de outubro, indiretas, de cartas marcadas pelo pacote de abril que garantia de antemão a confirmação do herdeiro do general Geisel, são mais um capitulo dessa farsa trágica que tenta a todo custo sustentar um governo anti-popular.

Os papéis foram bem desempenhados; de um lado Figueiredo se lança com palavreados e esporas sobre o povo, do outro, Euler Bentes representa o papel do “general do consenso”. Tentando descomprometer o Exército do grupo policial do Planalto, ele busca criar uma corrente de opinião que, apoiada por forças militares, poderia em longo prazo controlar a sucessão de Figueiredo. E, agindo no meio civil, aperta setores da burguesia, através do MDB e oposição liberal, para criarem uma alternativa própria de intervenção política na sociedade para neutralizar o avanço popular”. (nº 26 , ano 3, p. 2)

A partir dessa leitura destacam-se:

A Semântica do Discurso, o plano de leitura, tem como função, remeter ao leitor uma idéia de permanência de sentido no discurso, sendo construído por uma seqüência de elementos que conduzem a um determinado sentido, que é o da política, atravessado por outros planos de leitura como o da revolta. 

O discurso é explícito do início ao fim, mas apresenta um implícito subentendido que demonstra ironia, no primeiro parágrafo, na expressão “momento muito especial”, como se nessa primeira linha do texto o leitor fosse brevemente ludibriado para logo depois entender que o momento é especial por ser crítico, difícil e não por ser um acontecimento bom, modo como essa expressão é significada pelo senso comum.

Analisando o editorial identificamos algumas palavras como: violência, tortura, mortes, entre outras, que compõem o tema da violência arbitrária, presente no plano de leitura da revolta.  As figuras como tortura, polícia, armas, e esporas, são elementos que concretizam esse tema e nos permitem visualizar mentalmente o clima tenso de uma ditadura.

No 1º e 2º parágrafo encontramos os temas da farsa (equivoco, engano), do autoritarismo, da exploração e da miséria. Esses temas compõe o plano de leitura da revolta.

No plano de leitura da política, podemos destacar o tema da atuação e controle no cenário parlamentar do país, as discussões verbais pontuam a disputa acirrada pelo governo e a corrupção. Podemos relevar no plano de leitura as figuras referentes ao ato de votar, de ir às urnas, as cartas do pacote do mês de abril e exploração da classe operária.

Ao citar as eleições e alguns políticos, o editorial demonstra a sua formação ideológica, contrária aqueles que estão no poder. Assim, o texto nos apresenta o conjunto de temas e figuras que compõe uma visão de mundo. Essa posição ideológica é identificada no tom crítico do editorial e por meio dos diversos temas presentes no discurso, como a violência, a censura e exploração da classe operaria, concretizados pelas figuras: eleições, morte, torturas e políticos.

O discurso faz referência a personagens coletivos como a classe política, militar, operária e estudante. Além disso, o discurso menciona personagens individuais como: General Geisel, Euler Bentes e o presidente Figueiredo.

A sintaxe na categoria Pessoa no editorial, na palavra “nós”, significa os opositores ao regime, proporcionando um efeito de proximidade com o leitor, mas ao mesmo tempo a palavra “ele” produz o mesmo efeito de distanciamento quando se fala dos políticos.

A semiótica agora analisada teve estudo por Pierce e está alicerçada dentro da fenomenologia, que trabalha a idéia de um signo, que é tudo aquilo que se tem contato, pois através dele que acontecerá a representação do objeto.

Dentro de suas apresentações, destaca-se a palavra ícone, que faz relação de similaridade e sugere o objeto. Além disso, tem o índice, que indica o objeto dinâmico.

Abaixo a análise semiótica da charge capa do jornal De Fato:

Os signos são representados pela farda, o coturno e as medalhas, que remetem a imagem de um militar, o que se encaixa como ícone para identificar a imagem.

Os óculos e o cabelo referem-se ao General Figueiredo, sendo seu ícone. Sua espora é um índice, pois demonstra o autoritarismo do seu governo.

A fumaça saindo da urna eleitoral e a mão no nariz do General Figueiredo são signos icônicos, que fazem relação com a frase “Tem cheiro de povo no ar”, que remete à época da ditadura, onde a população começa a ter lugar na política e, para o General isso não cheira bem.

Conclusões

Este estudo tratou de uma pesquisa bibliográfica que teve abordagem histórica-cultural, demonstrando a versatilidade da imprensa alternativa perante a sociedade, focado no jornal De Fato.

A importância em discutir o tema, é que a cidade de Belo Horizonte não tem conhecimento sobre o jornal De Fato, o que é essencial para a história regional e cultural da capital mineira.

Temas como sexualidade, política, economia e educação, antes eram censurados, porém atualmente tem repercussão nacional. O movimento feminista, por outro lado, ainda é pouco discutido na imprensa contemporânea, o que torna o jornal ainda mais diferenciado diante dos outros.

Apesar das dificuldades iniciais, queremos pontuar que as histórias de vida aqui relatadas tiveram um grande destaque no desenvolvimento do trabalho. Podemos afirmar que a partir desse estudo, não só Belo Horizonte, mas como também outras cidades do país terão material disponível para ler sobre a imprensa alternativa e o jornal De Fato.

Referências Bibliográficas

ABRAMO, Perseu. Imprensa alternativa: alcances e limites, Rio de Janeiro, nº 233, p. 1-3, ago. 1988. Disponível em (http:// www2.Fpa.org.Br).

DE FATO. Belo Horizonte. nº 04, mai. 1976. 20 p.

DE FATO. Belo Horizonte. nº 11, fev.1977. 20 p.

DE FATO. Belo Horizonte. nº 26, out.1978. 16 p.

DUTRA, Dione. Belo Horizonte. 06 mai. 2011. Entrevista concedida a Felipe Weykman e Mara Prata.

KUCISNKI, Bernardo. Jornalista e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo: USP, 2003, p.100-102 (De Fato – A crise de consciência).

MORAIS Aloísio. Belo Horizonte, 06 abr.2011. Entrevista concedida a Felipe Weykman e Mara Prata.

NAVARRO, José Gabriel.A arte do Desbunde.Revista Monet, São Paulo, nº 97, p.56-57, abr.2011.

MARTINS, Edson. Belo Horizonte, 6 mai. 2011. Entrevista concedida a Felipe Weykman e Mara Prata.

PERUZZO, Cicília M. Krohling. Aproximações entre comunicação popular e comunitária e a imprensa alternativa no Brasil na era ciberespaço. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 31, 2008, Natal, RN.Anais… Natal, RN: Intercom, 2008, p. 1-15.

RODEGHERO, Carla Simone. Reflexões sobre a história e historiografia da ditadura militar: caso no Rio Grande do Sul. In: ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA, 9; 2007, Rio Grande do Sul. Anais… Rio Grande do Sul, Associação Nacional de História, 2007, p.1-16.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Marcio E.Marçal dos Santos
    dez 03, 2011 @ 04:42:19

    Pois é… BH já teve Imprensa… nanica, mas maiúscula, hercúlea!!!

    Responder

  2. MÁRIUS FURTADO
    jan 24, 2012 @ 04:05:33

    Pôxa!depois de muitos anos tive a grata satisfação de ver a pesquisa sobre o jorana DE FATO.O tempo passou e uma reportegem que deixou marcas em mim foi sobre a CocaCola que evito beber até hoje e em 1978 casei-me e dai tive 3 filhos e com esforço da minha mulher criamos os filhos sem refrigerantes principalmente a cocacola.Gostaria de ver a reportagem que fala sobre a coca cola.Valeu!

    Responder

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